CACAU E GAIBÉUS, PALAVRA DE ORDEM
Geraldo Nogueira de Amorim – UFPB
Os anos 30-40 assistem o desdobramento das vanguardas com os movimentos políticos inovadores que propõem uma nova realidade sócio-política para o país. Pela primeira vez na história brasileira o poder público convida representantes da intelectualidade jovem para participar da gestão do estado[1]. Aceito o desafio, os intelectuais egressos dos quadros modernistas promovem e estabelecem a passagem de uma fase predominantemente estética, para uma outra acentuadamente ética e política. Desse modo, se a primeira etapa do Modernismo brasileiro, bem como do Orfismo português[2], são representados pela ação da “Dialética da negação”, a experiência das décadas de 30-40, quando então o social e o existencial se associam, para alcançar a realidade nacional, a natureza estética não deixou de comparecer à sua prática crítica.
Assim, a produção literária daí resultante, a qual passo a chamar de neo-realista, constitui exemplo modelar para a análise das questões tanto ideológicas quanto estéticas, neste caso, em particular, por ser um texto que, de um modo geral, passou por sucessivas renovações internas, no estabelecimento da escrita[3].
É no interior desse panorama que se situam as produções literárias de Jorge Amado e de Alves Redol. As obras aqui estudadas, Cacau e Gaibéus,marcam o início da carreira dos dois escritores; não sendo este o principal motivo do nosso interesse pelas mesmas, mas especialmente as relações que aproximam e afastam um romance do outro.
Demais, como diria Eduardo de Assis Duarte, (referindo-se ao escritor baiano) os autores apreciados por milhões de leitores em várias partes do mundo apresentam em sua recepção crítica um considerável acervo de pesquisas, teses e ensaios, entretanto, quase todos em torno das obras da maturidade. Enquanto os primeiros livros, escritos sob o impacto das transformações sociais, políticas e históricas, no Brasil, em Portugal e no mundo da primeira metade do século XX, parecem enredadas numa teia de silêncio por parte da crítica, quem sabe, por revelar em demasia o ardor da militância que defendem[4].
Além disso, depois da glasnost, da perestroika e do desmoronamento do muro de Berlin, resultantes do arrefecimento da era de Stalin e da crise do marxismo, torna-se oportuno a releitura dessas obras, sobretudo num momento em que assistimos a quebra dos paradigmas, pela força de uma política neoliberalista e uma economia globalizada. Vem daí, também, nosso interesse pelos primeiros romances dos autores em pauta, a fim de resgatar a ação dos jovens escritores que, a exemplo de muito outros de sua geração, romperam com a “arte pela arte”, para fazer da página literária um instrumento de luta, um veículo de transformação.
Cacauveio a público em 1933. Conforme o título sugere, tem como matéria ficcional a luta dos “alugados” que vendem sua força de trabalho aos coronéis da zona cacaueira do sul da Bahia. O livro inscreve-se na linha de romance proletário, inaugurado na literatura brasileira por Amando Fontes, autor de Os corumbas(1933), romance de herança naturalista. Com CacauJorge Amado inicia o ciclo do mesmo nome, que tem seu ponto alto com os romances Terra do sem fim (1943), seguido porSão Jorge dos Ilhéus, no ano seguinte.
A narrativa em primeira pessoa é antecedida por uma nota do autor, espécie de epígrafe, que introduz a efabulação e abre espaço para a natureza da matéria romanceada. Assunto que, se por um lado revela a franqueza do “escritor aprendiz”, por outro, acabou servindo de pretexto para o ataque por parte da crítica. Assim, o “mínimo de literatura” de que diz na nota, não deixou de ser entendido como descaso formal, “mínimo de literatura” que, na concepção de Marques Rebelo, significava na época, opor-se à retórica circunstancial, traduzida pela fala difícil da tradição bacharelesca desde os tempos imperiais[5], agora posta em cheque, em favor de uma escrita sem o peso excessivo da elaboração formal.
Desta feita, a linguagem do romance em questão aproxima-se da fala do homem simples do campo, “com seus desvios gramaticais”[6].A voz que narra levanta-se do meio dos trabalhadores e como tal reproduz o diálogo do operariado na faina, de tal modo verossímil que materializa a proposta do autor, ou antes do movimento que representa, de escrever para o povo, com a língua do povo, quebrando assim a barreira que se estabelece entre o literário propriamente dito e o coloquial.
O enredo tem como fio condutor a experiência de José Cordeiro, o sergipano, jovem da pequena burguesia de São Cristóvão, antiga capital do estado de Sergipe, moçoque depois da morte do pai passa a trabalhar na fábrica de um tio, o qual havia levado a família do sobrinho à ruína. Passados cinco anos, o rapaz entra em desentendimento com o tio, quando então emigra para o sul da Bahia, onde vende sua força de trabalho na “Fazenda Fraternidade”, de Manuel Misael de Sousa Teles, vulgo Mané Frajelo, e passa a contar sua própria história.
A estória começa in media res, expediente que possibilita encaminhar a narrativa na direção da aventura, aproximando-a de uma epopéia, seja para traçar o perfil de um período historicamente datado: os anos 30, seja para narrar a saga da cultura cacaueira no sul da Bahia, a partir de uma experiência pessoal.
A matéria focada revela não só a ambientação do trabalho, como também sugere o estado interior das personagens e figurantes que compõem o cenário:
As nuvens encheram o céu até que começou a cair uma chuva grossa. Nem uma nesga de azul. O vento sacudia as árvores e os homens seminus tremiam. Pingos de água rolavam as folhas e escorriam pelos homens. Só os burros pareciam não sentir a chuva. Mastigavam o capim que crescia em o armazém. Apesar do temporal os homens continuavam o trabalho. (p.9)
Isto posto, toma o fluxo da memória e recupera alguns quadros da infância, para falar de sua identidade, lembrando os pais, a casa, a terra, enfim. Para em seguida, depois de rápidos comentários acerca da viagem, retornar à fazenda, quando daí por diante uma sucessão de cenas e quadros informa em pormenores sobre a vida em torno da ceifa do cacau.
Como em geral acontece com obras desse gênero, o universo humano apresenta-se dominado pelo mais grosseiro maniqueísmo, no qual os trabalhadores e humildes representam a parte boa da sociedade, enquanto os ricos e poderosos a parte ruim[7]. No centro de gravidade desse mundo corrompido, encontra-se a figura do coronel Misael, o mais rico fazendeiro da região, cuja alcunha de Mané Frajelo define o caráter do proprietário, assim caricaturado pelo narrador, ou melhor, por José Cordeiro:
O coronel possuía uma voz arrastada, demorada, cansada, de animal sagaz, e uns olhos maus, metidos no fundo da cara enrugada pela idade. Cultivava, como meu tio, uma barriga redonda, símbolo da sua fartura e da sua riqueza. (...) Talvez porque tivesse sido alugado nos odiava e desconfiava de nós. (p.85)
Em estudo que dedicou ao assunto, Adonias Filho apresenta algumas características particulares da formaçãocultural da região cacaueira do sul da Bahia. Uma delas, a pouca contribuição do braço escravo. De modo que a abolição pouco alterou o ritmo de desenvolvimento local. Outro aspecto apontado diz respeito à importância dos núcleos urbanos na organização da economia e da sociedade:
A ausência do trabalho escravo deve ter concorrido, além de outras razõesculturais, para o coronel do cacau muito se diferenciasse do senhor-de-engenho. Diferencia-se, por exemplo, ao necessitar da vila ou cidade já que a fazenda de cacau não é um povoado feudal como o engenho de açúcar. A casa da fazenda de cacau, ao contrário da casa-grande do açúcar, sem senzala e capela, dispondo apenas de móveis rústicos e pobres, é quase um acampamento.[8]
Diferença que se estende à origem do coronel em relação ao empregado José Cordeiro. Isto é, enquanto o patrão fora alugado, o empregado vem da pequena burguesia, transformando-se em trabalhador braçal. Todavia, o domínio da leitura e da escrita o distingue dos outros trabalhadores, entre os quais, exceto Colodino, “Que andara pela escola e lia e escrevia para o pessoal” (p.46), apenas ele, José Cordeiro, tinha instrução. Condição essa que permite não só narrar e refletir sobre o narrado, mas, sobretudo ensinar e conduzir os camaradas, dentro e fora do texto[9].
Desse modo, lembra Assis Duarte, em Cacau, o destaque da narrativa está voltado para a representação, sempre bem marcada, do abismo que separa as classes. O tempo todo, os trabalhadores estão a comparar suas casas com a do patrão, os salários com o valor da safra, as economias com a dívida na despensa da fazenda. No fundo, são proletários que pensam, discutem e procuram entender o processo secular a que estão submetidos, e imaginam uma saída. Isto é, “Um dia...” (p.90)
Não obstante, se as classes sociais são bem definidas, o espaço físico também está devidamente marcado. Nesse universo, a “Fazenda Fraternidade” representa o lugar do trabalho, onde cada um tem o seu papel, mas todos os trabalhadores são teoricamente iguais, e, como tal, sujeitos às leis do coronel, de modo que, em caso de transgressão, podem ser surpreendidos pela ação dos jagunços, numa tocaia ou emboscada.
Em contrapartida, a vila de Pirangi, “rua única de uns dois quilômetros” comparece como o espaço do entretenimento, ainda que regulado de forma rígida, especialmente nos fins de semana. O “Cine Aliança”, os leilões, os cordões carnavalescos e os bailes dão a medida das festas ali realizadas. Porém, mesmo nessas ocasiões as classes não se misturam; muito pelo contrário, mantidas as devidas distâncias, cada grupo ocupa o seu espaço. Todavia, se um deles pode invadir o espaço do outro, não faz por menos.
Além desse espaço, existe a Rua da Lama, “Um beco sem saída” temido pelas mulheres, para quem “a polícia devia proibir aquilo” (p.61), aonde iam parar as mulheres desfeiteadas pelos coronéis e pelos filhos dos patrões. “Pobres mulheres que choravam, rezavam e se embriagavam na rua da Lama”. (p. 65)
Mais que os “alugados” elas eram duplamente exploradas, visto que enquanto os trabalhadores alimentavam o sonho de um dia mudar de vida, “Uma certa intuição deque alguma coisa, um dia...” (p.90), no entender do sergipano, elas, ao contrário, não tinham saída, conforme o sintagma de sentido ambíguo que nomeia o beco onde moravam. Ou seja, elas se livravam das garras dos donos da terra, para cair nas mãos dos trabalhadores, da gentalha comum.
Assim, Cacauvai se desenvolvendo, ora como documento, ora como depoimento; caso, por exemplo, dos capítulos “Greve” e“Consciência de classe”, bem comoos dois outros denominados “Correspondência”, ambos comprometidos em denunciar o drama do povo explorado.
A propósito disso, o capítulo que leva o nome do romance serve de síntese da obra. Trata-se de uma verdadeira crônica, escrita com as tintas do cotidiano precário de cada uma das personagens. Nele, no capítulo, ouve-se a ressonância de várias vozes, constituindo um discurso polifônico, para citar uma das categorias apresentadas por Mikhail Bakhtin[10]. Isto acontece, mais exatamente, no discurso entre Valentim e Horácio, no qual as personagens em apreço usam do expediente da paródia, para contar a versão acerca da origem e riqueza do coronel a que têm por patrão:
-Deus deu de herança a Caim e Abel uma roça de cacau pra eles dividirem. Caim, que era home mau, dividiu a fazenda em três pedaços. E disse a Abel: esse premero pedaço é meu. Esse do meio, meu e seu. O último, meu também. Abel respondeu: Não faça isso, meu irmãozinho, que é uma dor do coração... Caim riu: ah! É uma dor do coração? Pois então tome. Puxou do revólver e — pum — matou Abel com um tiro só. Isso jáfoi há muitos anos...
-Caim deve ser avô de Mané Frajelo.
-Nada. A avó de Mané Frajelo era a rapariga do Pontal.
-Você sabe, Horácio?
-Sei. A mãe morreu de fome (...) O fio nem aí
Com efeito, o diálogo tira proveito de termos bíblicos, populares e regionais para homologar o processo de reificação dos trabalhadores[11].
Por fim e ao cabo da narrativa, a atitude deliberada de José Cordeiro, de abrir mão do envolvimento amoroso com a filha do coronel, em favor da luta operária, mostra quanto o narrador estava comprometido com o ideário que defendia. Verdade que mais de uma vez o sergipano foi seduzido pelos ímpetos da paixão: Os meus sonhos começavam a me perturbar. Sonhava com cacau e logo depois não era mais cacau, eram os cabelos louros de Maria. (p.95) Entretanto, o amor pela classe operária, “Amor humano e grande”, mataria o amor pela filha do coronel.
Desse modo, o narrador de Cacause fortalece e se encaminha na direção do herói positivo de que trata Lukács, na matéria que escreveu sobre literatura socialista, ao mesmo tempo que revela a inconsistência do sonho e da utopia.
Em direção semelhante, encaminha-se a narrativa proposta por Alves Redol em Gaibéus,romance que, em termos de ficção,inaugura o Neo-Realismo em Portugal, em 1939. Trata-se da experiência de um rancho de ceifeiros que chegam ao Ribatejo para a colheita do arroz. A estória estende-se enquanto dura a colheita, que não vai além de uma semana, e a conseqüente dissolução do grupo, inscrevendo-se, portanto, nos fatos seriados do cotidiano dos campesinos que desenvolvem uma atividade específica no calendário agrícola português[12].
Por gaibéus entende-se os trabalhadores que migram de uma região do norte do país, onde a terra se encontra bastante dividida[13], para vender sua força de trabalho na lezíria — borda d’água ribatejana, durante a ceifa do arroz, voltando em seguida para sua courelas, nome que se dá à terra, própria ou de quem tem a posse. Nessa aventura, juntam-se aos rabezanos e aos carmelos. Os primeiros, naturais do Ribatejo, onde não possuem sequer uma leira de terra; os últimos, procedentes de mais longe ainda que os gaibéus.
No início se estabelece um estado de tensão entre gaibéus e rabezanos, oposição que se desdobra em outros problemas, tais como: norte/sul, ceifeiros donos de terra/assalariado sem propriedade, posto que a terra ali pertence a “senhora companhia”, de tal maneira que todos eles, independentemente da origem, constituem um só grupo, ou antes, um aglomerado que, ainda com desejos individuais, se identificam pelo mesmo sofrimento e são vítimas de igual exploração.
Desta feita, o protagonista da ação é o coletivo, tal qual acontece com o coro da mais remota tragédia ática[14]. Todavia, o principal foco do romance é o trabalho da colheita, conforme indicam, entre outros, os capítulos intervalares “Arroz à foice” e “Mensagem de nuvem negra”, de modo que o centro nuclear é o conflito, ou antes, a situação estabelecida pelo regime de trabalho, centro de irradiação semântica da obra, no entender de Aparecida Santilli, anteriormente citada.
O romance é composto de dez capítulos, além de uma epígrafe e dedicatória. O estilo é de reportagem jornalística, e o narrador onisciente coloca-se como espectador: avança, recua, manipula o tempo, entra na alma das personagens etc. Usa o tempo presente, presente atemporal, o que confere à narrativa um efeito imagético e cinemático das cenas.
O tempo é determinado pela sucessão cronológica dos acontecimentos da narrativa, a qual se desenvolve linearmente, enquanto dura a jornada da ceifa do arroz: “...pois da sangria à recolha do bago poucas semanas iam” (p.21). Enquanto a estrutura dialógica está organizada através de discurso direto e indireto livre, ainda que crítico e poético: “Era uma gaiboa de olho azul que nem a flor do almeirão. Desenxovalhada e bonita de cara que nem uma Nossa Senhora”. (p.58)Sem contudo, deixar de estabelecer uma relação dialógica com a história, com a sociedade e com a cultura através do mundo do trabalho, espaço gerador dos conflitos e tensões sociais. Isto porque, “Os patrões querem pessoal que não tenha domingos e se alimente de jornas baixas”. (p.65) No caso, homens-máquinas, e segundo o narrador, as máquinas não pensam. Por outro lado, “A Senhora Companhia não perdoa a renda da terra, haja o que houver”. (p.84)
Daí, nesse espaço de reificação do trabalho, não haver lugar para ti Maria do Rosário, figura emblemática que em vão tenta acompanhar o ritmo da jornada, e em razão disso ia ficando para trás, a despeito da zanga do chefe, para quem a ceifa não pode parar.
A figura de ti Maria do Rosário representa uma espécie de espelho que reflete o presente e projeta o futuro. Cada uma das personagens mira-se em tal figura, antevendo o futuro que lhes baterá à porta, um dia. Personagens que, exceto Agostinho Serra, o patrão, a maioria vai gradativamente perdendo a identidade e se escondendo por trás de uma alcunha, tal como: Francisco Descalço, João da Loja, Tonho, Zé, ou simplesmente Cadete, Malpronto, Passarinho etc., expediente que estabelece o status quo que separa quem domina dos dominados.
Nessas condições de extrema precariedade, ergue-se a figura do ceifeiro rebelde. Para ele “os brados dos aguadeiros assemelham-se a gritos de socorro no meiodo incêndio”. Razão pela qual “Sente-se mais abatido do que os outros, porque compreende as causas da angústia do rancho e sabe que os outros sofrem mais. Ele tem um norte. E os camaradas ainda não encontraram bússola”. (p. 83)
O que de certo modo, segundo tal ceifeiro, não era difícil: bastava observar a natureza e tomar os pássaros como exemplo: “Os estorninhos juntam-se para sedefenderem do milhano que os espreita; já sabem que se dispersam as garras não os poupam. Assim, em multidão, o perigo afasta-se.
Os estorninhos ensinam os homens — os homens teimam ainda e não compreendem a lição”. (p.l3O-31)
Assim, como uma espécie de alter ego do autor, o ceifeiro rebelde torna-se o porta-voz dos camaradas, em sua maioria, alienados, para denunciar a exploração por parte do sistema econômico vigente, o capitalismo. Ao mesmo tempo em que, por meio dessa obra Alves Redol tem o mérito de ser o primeiro na literatura portuguesa, como destaca Pinheiro Torres, a demonstrar o fenômeno da alienação, definindo-o, investigando-lhe as causas e apontando caminhos para a superação.
Romance de tese, cujo texto oscila entre o literário e o documental, Gaibéusmantém afinidades com Cacau,romance brasileiro de período histórico e literário semelhante, com o qual dialoga. Contudo, como diria Tânia Carvalhal, em “Teorias em literatura comparada”, cada um se identifica e se distingue do outro pela forma particular como problematiza o literário[15].
As relações que aproximam um romance do outro começam com a matéria focada: aspectos do mundo do trabalho agrário, os quais têm sua representação literária. Do assunto temático aparentemente comum, chega-se ao projeto estético e ideológico, outro ponto de contato entre as duas obras.
À guisa de ilustração, comecemos pelas epígrafes que introduzem as narrativas; matéria extra-literária que informa a natureza do texto a ser narrado, e abre espaço para indagações acerca da especificidade do mesmo. Assim, mantidas as devidas autorias, é o que acontece com a “Nota” introdutória do texto amadino, assim como com a do romance de Redol. Citemos a primeira:
Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia.
Será um romance proletário?
Exemplifiquemos a segunda:
Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documento humano fixado no Ribatejo.
Depois disso, será o que os outros entenderem.
Com efeito, há uma simetria que, a princípio, aproxima os dois autores quanto às propostas estéticas e ideológicas que dão suporte às obras. Todavia, é a partir da inserção no texto propriamente dito que se conhece a malha e se reconhecem os fios que compõem o tecido literário.
Antes, porém, de enveredar pelo texto, vejamos inicialmente o tipo de narrador e a tipologia da narrativa. Desse modo, Cacautem em José Cordeiro, jovem da pequena burguesia sergipana, seu narrador; Gaibéusé narrado pelo ceifeiro rebelde, personagem que partilha com o autor semelhante experiência de vida. Nessa ordem, ambos se apresentam em igualdade de condições perante o leitor, o qual se vê diante de uma literatura comprometida com o social.
O substrato lingüístico constitui outro ponto de convergência predominante entre os dois romances, via de regra, realizado em três níveis distintos, os quais vão do literário ao popular, e deste àquele que se desvia do padrão normativo da língua, de modo a contemplar a fala das diversas personagens que pertencem a camadas sociais diferentes. Caso, por exemplo, do sergipano, do ceifeiro rebelde, dos patrões, dos capatazes e da massa dos trabalhadores assalariados.
Tal nivelamento fica bem caracterizado nas ocasiões em que se aflora o excesso de exploração por parte dos patrões para com os empregados, alienando-os no rol de suas propriedades, ou, pelo menos, com essa intenção manifesta. Ilustra isto a escolha do sergipano pela filha do coronel Sousa Teles, para servi-la durante a temporada da família deste na fazenda; assim como a eleição de Rosa, para trabalhar na casa de Agostinho Serra. Se em gênero tais personagens pertencem a sexos opostos, psicológica e existencialmente se aproximam. Do ponto de vista humano e existencial ambos são vítimas de uma situação que os envolve e humilha.
Vejamos o primeiro exemplo:
Chegara a hora temida da escolha. Maria tirava um trabalhador para ficar à disposição da família. Nós nos assemelhávamos a uma rencada de pintos, dos quais um, o mais pitoresco, seria separado dos outros e levado para a casa do patrão. Temíamos a escolha porque, se bem que o trabalho fosse menor, a humilhação era muito maior.
Os olhos de Maria pararam em mim. Baixei a cabeça, soturno.
- Aquele sergipano, papai.
- ...................................................................
- Olhei os camarada. Honório sentou-se junto a mim:
- Você vai sofrer um pedaço, sergipano. Aquela menina é uma miséra de orgulhosa. Eu sofri o ano passado. Mas é assim mesmo. São tudo uns peste (p.88-90).
Comparemos com o segundo exemplo, no caso, extraído de Gaibéus:
- Preciso lá em baixo de uma rapariga para me tratar das coisas... As mulheres lá dos teus sítios são boas donas de casa...
- Pois sim, patrão! ... — Respondeu-lhe numa voz apagada.
E veio-lhe à imagem de Rosa, contrafeita no meio dos ceifeiros: sem entender porquê, a rapariga deixara decair a mão até às coxas.
....................................................................................................................................
Ela estava como viera ao mundo, mas fora mulher de muitos nos olhares e nas palavras. Sabia de cor, como as mulheres da Pedro Dias conheciam homens.
.....................................................................................................................................
Eh, rapariga! ... Volta aqui!...
....................................................................................................................................
Ela continuou sem um movimento. Estava à frente do patrão, de mão decaída, como a tapar o sexo.
Está lá a Maria Gadanha e ela ensina-te tudo. Vai, anda! ... Diz-lhe que janto cá (p. 94-97)
De onde se depreende que, a Pedro Dias temida por Rosa equivale à Rua da Lama, aonde iam parar as tabaroas desencaminhadas, à flor da idade, pelos patrões ou pelos filhos dos coronéis; assim como o despotismo por parte de Maria, filha do coronel Sousa Teles, não é diferente do aliciamento de Agostinho Serra. Num caso e noutro, o uso e abuso do poder, da exploração. Exploração que não poupa sequer os menores, cuja passagem para a maioridade se dá, extra-oficialmente, mediante ritos de iniciação.
A propósito do assunto, em Cacau, tal passagem ocorre depois que os menores contraem doenças venéreas e são curados; em Gaibéus,quando os garotos começam a fumar. Daí por diante são considerados homens de fato, e passam a fazer parte e ter direitos no mundo dos adultos, do qual já compartilhavam por meio do trabalho, da exploração e da alienação, enfim. Não obstante, não podemos dissociar do contexto a dimensão de tais ritos de passagem, enquanto elementos fundantes incorporados à cultura de cada um dos países e de suas respectivas regiões a que estão ligados.
Apesar de tudo, verifica-se entre as personagens algum esforço no sentido de encontrar uma saída, uma superação. O desejo manifesto do sergipano, de ir embora para o Rio de Janeiro, assim como o projeto de emigrar para a África ou o Brasil, que alimenta o sonho de mais de um ceifeiro, dão conta disso. A diferença está no objetivo que nutre a esperança de cada um: militância política para o primeiro, independência econômica para os demais.
Desse modo, CacaueGaibéusentram na história da literatura luso-brasileira como romances dos mais representativos da fase ortodoxa do Neo-Realismo, quando então a palavra de ordem era denunciar. Denunciar as desigualdades sociais, o sistema econômico, a exploração do trabalho pelo capital, ao tempo em que seus autores se colocam diante de uma trincheira e fazem da palavra um instrumento de luta em defesa da cidadania.
[1]Cf. Miceli, Sérgio. Intelectuais e classes dirigentes no Brasil. São Paulo, Difel, 1979.
[2]Movimento em tornoda revista “Orpheu”, fundada em Lisboa, em 1915, liderada por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, que lançou as bases do Modernismo em Portugal.
[3]Como mostra Benjamin Abdala Júnior na obra A escrita neo-realista. São Paulo, Ática, 1981.
[4]Duarte, Eduardo de Assis. “Jorge Amado e o bildungsroman proletário” In Um grapiúna no país carnaval. Org. e revisão de Vera Rollemberg; textos de Eliane Azevedo et al. Salvador, FCJA/EDUFBA, 2000, p.7l.
[5]Apud. Duarte, Assis. Op. Cit. p.48.
[6]Duarte, Assis. Op. Cit. p. 49.
[7]Gomes de Almeida, José Maurício. A tradição regionalista no romance brasileiro. Rio de Janeiro, Achiamé, 1981, p.223.
[8]Adonias Filho, “O romance brasileiro de 30”. Rio de Janeiro, Bloch. 1969, p.52.
[9]Duarte, Assjs. Op. Cit. p.52.
[10] In Problemas da poética de Dostoievki, tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981.
[11]Duarte, Assis. Op. cit. p. 56.
[12]Santilli, Maria Aparecida. Entre linhas — desenvolvendo textos portugueses. São Paulo: Ática, 1984, p.63.
[13]Torres, Alexandre Pinheiro.Qs romances de Alves Redol. Lisboa: Moraes Editores, 1979, p. 21.
[14]Lopes, Óscar. “Gaibéus — uma leitura, uma lição cinquentenária” In Gaibéus. Lisboa: Editorial Caminho,
1989, p.60
[15]Cf. Revista Brasileira de Literatura Comparada — ABRALIC — São Paulo: 1994, p.9-l7.